Por Carlos Augusto Monteiro.

 

Após ouvir a gravação do episódio do Crazy Metal Mind nº 297 – “Belchior: Alucinação”, em maio de 2017, passei a me interessar mais pela obra do gênio cearense. Mas foi só recentemente que, ouvindo uma playlist sobre Belchior no Spotify, fiquei surpreso ao me deparar, no meio das canções cantadas por ele, uma versão de “Princesa do meu lugar” cantada com muita expressão por uma voz feminina e com um belo arranjo acústico.

 

Fui pesquisar de quem se tratava e assim descobri a cantora Daíra, nascida aqui no estado do Rio, em Niterói. Por uma grande coincidência, justo naquele dia ela estava lançando no Youtube o videoclip de “Princesa do meu lugar”, um dos destaques do álbum “Amar e mudar as coisas” (2016), todo baseado nas canções do cearense.

 

 

O álbum “Amar e mudar as coisas”, aliás, foi um grande marco em sua carreira. Daíra começou ainda criança, cantando na TV e no teatro, e lançou um outro álbum antes, chamado “Flor”, essencialmente de MPB e Bossa Nova. Mas foi com o repertório de Belchior que ela fez interpretações ao vivo que rendem elogios até hoje, como, por exemplo, da cantora Elba Ramalho, com quem já dividiu palco.

 

Para celebrar esse repertório, e chegar a mais fãs por todo o Brasil, a cantora lançou um projeto de crowfunding, que visa custear a empreitada e também viabilizar a produção de novos vídeos para seu canal do Youtube. A turnê, que começa em 23/2 no Rio de Janeiro, segue por outras cidades como Fortaleza, São Paulo, Salvador, Recife, Belém, Belo Horizonte e Brasília, atendendo aos pedidos dos fãs em suas redes sociais.

 

“Ao fazer as versões de Belchior eu já estava completamente conectada com sua mensagem, mas em 2018 isso tudo se acentuou. Muitas pessoas voltaram a ouvir suas canções como forma de alento e a pedir mais shows em suas cidades”, conta Daíra.

 

Daíra também está produzindo o trabalho "Pachamama Chama", com canções próprias e inéditas de compositores de sua geração. Ela produz também um programa de cinco episódios junto com a cantora e compositora Luhli Borges, que vai ao ar nos próximos meses em seu canal do YouTube. Sua nova música, "Ser Lluvia", foi lançada há pouco na internet.

 

Confira abaixo a entrevista que fizemos com Daíra:

 

CRAZY METAL MIND – Você interpreta Belchior com muita segurança e, pouco antes de lançar seu álbum, ele faleceu. Como foi essa triste coincidência?

 

DAÍRA – Foi um choque enorme. Eu havia lançado no Youtube o vídeo ao vivo de “Princesa do meu lugar” e estava prestes a lançar o de “Alucinação” no domingo, 30 de abril de 2017, quando justamente ele morreu. Fiquei muito triste principalmente porque ele não viu o disco lançado.

 

Como você encara o desafio de levar adiante o legado de Belchior, num cenário musical que pouco valoriza compositores como ele?

 

Desde 10 anos de idade eu canto compositores novos dentro da MPB, pouco valorizados na mídia que eu vivenciava na época. Então, há quase 20 anos eu sempre busquei apresentar um lado da música muito diferente do que estava sendo posto para mim. A internet me ajudou muito, tanto na pesquisa de compositores dos anos 70 quanto compositores que trazem propostas novas.

 

Você já mencionou que as pessoas estavam sentindo falta das letras de Belchior e que a ouvem hoje como uma forma de alento diante dos momentos políticos conturbados que temos vivido no Brasil. Como você vê a importância de Belchior hoje para o país?

 

Belchior é um poeta filósofo e leva uma mensagem muito atemporal para as pessoas. Essa história de opressão de povos sobre povos é muito antiga e se repete. É a história da América Latina, do oprimido lutando contra o opressor, ou se resignando mas sem deixar de ser a resistência. Belchior satiriza isso, dá um enfoque sarcástico. São muito importantes as críticas dele. E muito necessárias para que as pessoas abram um pouco os olhos e entendam que não está tudo bem. E a gente deve se interessar em mudar as coisas.

 

Você compôs recentemente com Lucas Fidelis uma canção nova, chamada “Ser Lluvia”, em espanhol. Seu primeiro disco, “Flor”, é todo baseado na MPB tradicional, com influências de bossa nova, samba e jazz. Tem até arranjos do Roberto Menescal. Por outro lado, você já gravou stories cantando músicas pop de cantoras americanas. Como essas várias influências estão presentes nos seus trabalhos?

 

Após um contato que tive com Roberto Menescal eu passei a conhecer mais a Bossa Nova antiga e incluí o gênero na minha pesquisa de MPB. Mas eu também escuto música do mundo todo. Beyonce é muito completa e eu me divirto muito cantando pop norte-americano. E ainda aprendo vocalmente. Isso tudo dialoga com meu trabalho de interpretação, esse ecletismo.

 

Como surgiu o convite para fazer a versão Bossa Nova de “Smoke on the Water”, do Deep Purple? Ficou bem interessante!

 

Essa gravação é fruto de um projeto do Roberto Menescal de lançar músicas em versão Bossa Nova. É um trabalho voltado para o mercado japonês. Eu recebi o convite e foi meu primeiro contato com o Menescal e a primeira vez que gravei com ele. Espero que os ouvintes japoneses tenham gostado!

 

 

Alguma mensagem que gostaria de deixar?

 

As pessoas precisam entender que elas têm o poder na mão de mudar as coisas. Dentro do cenário musical é muito importante que quem está insatisfeito com o que toca na grande mídia pesquise na internet porque hoje há muitos artistas bacanas. Há muitos compositores bons por aí, como Claos Mozi, João Mantuano, Paulo Beto, Duda Brack, Júlia Vargas, Chico Chico e muitos outros que não citei, mas sintam-se citados.  As pessoas precisam buscar ser a mudança que querem ver em seu mundo.

 

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