Texto por Daniel Ribeiro.

 

Há mais de 50 anos atrás, uma ilustre desconhecida, cantora gospel de Detroit foi a um estúdio em NYC para tentar dar uma guinada na sua carreira. Ela era somente mais uma, no meio daquele movimento de cantores e cantoras negras de Soul, e do estouro da Motown e Cadillac Records, tudo respaldado pela lei de Julho de 1964, que proibia a segregação entre negros e brancos em espaços públicos dos EUA – um momento histórico gigantesco. Porém, a jovem Aretha lançou, no Dia dos Namorados de 1967, o que viria a se tornar um dos maiores e mais significativos hits de todos os tempos.

 

Desde então, ela figurou entre os titãs da música Americana. Apesar de um pequeno e modesto sucesso obtido no começo dos anos 60, ela realmente entrou no panteão da música ao assinar com a Atlantic Records, e entre 1967-1970, teve seu auge criativo e produtivo, onde lançou 7 (sim, SETE) álbuns de estúdio com o selo, e nesses álbuns podemos facilmente encontrar as razões que a estabeleceram como a rainha do Soul e a maior cantora americana do século XX, influência para todas as que surgiram dali pra frente.

 

Ela lançou músicas que mudaram o curso da história, que alimentaram movimentos e mudanças sociais e fizeram presidentes chorar (vale à pena ver o vídeo abaixo do Obama, chorando ao som de Natural Woman, de uma Carole King incrédula e interpretada divinamente pela Aretha). Ela foi uma vocalista perfeita, com uma voz potente, de alcance indescritível, mas ao mesmo tempo com muito sentimento nas suas interpretações, mais do que qualquer outra cantora da sua geração. Ela foi a rainha do Soul, ela é a rainha do Soul, e não tenho a menor dúvida de que não haverá sucessão para essa coroa. Ela era, e continuará sendo insubstituível.

 

 

Aretha, sentiremos sua falta todos os dias.

 

Vou falar um pouco de seu maior hino: R-E-S-P-E-C-T, que chegou ao topo das paradas 4 meses após seu lançamento e transformou Aretha num ícone do (embrionário mas já forte) movimento Feminista americano dos anos 1960. A faixa, originalmente, não tinha esse propósito e era inclusive desprovida de menções de gênero, feita pelo genial Otis Redding, cuja versão original, até trazia à tona a forma tradicional da configuração familiar da época: O homem trabalha o dia todo, traz dinheiro pra casa e para a esposa e exige dela que o respeite, em contrapartida.

 

A versão da Rainha, destruiu o conceito original. Para começar, Otis não soletra “R E S P E C T” como faz a Aretha, também não tendo backing vocals ao fundo e a forma inteligentíssima que elas se revezam no vocal. E sinceramente, o que tornou RESPECT um hit – e um hino do feminismo – veio do rearranjo dado pela cantora. Só posso dizer que,  concordando ou não com o movimento, ou com a música, é impossível não se emocionar com aquela interpretação tão forte e tão justa.

 

Com ela, a música foi a trilha sonora de um momento de transformação – não só de sua carreira, mas dos movimentos em prol dos direitos das mulheres e dos direitos civis em geral. Vale lembrar que além de todos esses movimentos, em 1968 tivemos também o assassinato do Martin Luther King Jr, culminando em uma série de protestos nos EUA, todos devidamente embalados ao som da sua versão de RESPECT.

 

E o que será que Otis Redding achava dessa mudança toda em sua música? Alguns dizem que o gênio e rei da Soul music não gostava muito da versão de Aretha, mas que próximo à sua morte, ele já tinha aceitado que RESPECT não pertencia mais ao Otis, e sim à Aretha e a toda a sociedade americana que lutava pela igualdade de direitos na efervescência dos anos 1960. Acho que nada melhor que o próprio Otis para confirmar o que estamos falando, quando ele abre o vídeo dizendo que vai cantar uma música que uma “garota roubou de mim” – e diz isso com todo aquele charme, aquele olhar orgulhoso de quem fez algo maior que sí próprio. No final das contas, Otis estava feliz com sua criação.

 

 

A Rolling Stone cita RESPECT como uma das 5 Maiores músicas de Todos os Tempos dizendo: “Franklin não estava pedindo nada. Ela cantou do alto de sua majestade pelo fim da submissão das mulheres e pela igualdade. Ela nunca quis nada de graça, só falava que se você quer algo, você irá conseguir.” No final das contas, ela queria só um pouco de respeito.

 

Aretha, você tem, não só nosso respeito, mas todos somos súditos de sua majestade, não só como Rainha do Soul, mas como Rainha da música, e maior voz feminina de todos os tempos.

 

 

Deus salve a Rainha Aretha.