Texto por Carlos Augusto Monteiro.

 

Uma das melhores bandas de rock do Brasil, o Barão Vermelho tem disponível há alguns meses um excelente documentário no Netflix, retratando todas as épocas dessa banda que sofreu uma alteração radical em meados dos anos 80, com a saída do insubstituível Cazuza, morto por complicações decorrentes da Aids em 1990.

 

Tão honesto e direto quanto o rock executado pelo grupo, “Barão Vermelho: Por que a gente é assim?” é um prato cheio para quem deseja entender o que era o Rio de Janeiro e o cenário musical nos anos 80, além de vivenciar todas as emoções, altos e baixos que uma banda de rock longeva pode ter.

 

Usando e abusando de imagens de arquivos, algumas de qualidade bem sofrível, o que pode tornar a experiência um pouco cansativa, o filme contextualiza bem o início da banda, resultado de influências das mais diversas.

 

Logo no início vemos uma jam em que todos barbarizam nos instrumentos, sem falar no vocal incrível de Cazuza, que trazia leveza e melodia ao rock cru de Frejat & cia.

 

 

É muito legal que a banda ainda consiga se reunir para debater a sua história e vemos isso bem nas imagens dos integrantes em estúdio conversando sobre seu passado.

 

Desde janeiro de 2017, o Barão Vermelho resolveu seguir em frente sem Frejat, que prefere tocar sua bem-sucedida carreira solo de maneira independente ao grupo. Recentemente, quem pulou fora foi o baixista Rodrigo Santos, pelo mesmo motivo. A banda segue na ativa, com Rodrigo Suricato nos vocais.

 

Mas é claro que o grande foco é o Barão Vermelho que começou com Cazuza. Até porque a presença de Suricato não é sequer mencionada, já que o documentário iniciou produção há cinco anos.

 

O espectador poderá se deliciar com imagens do Rio boêmio e praieiro dos anos 80. È claro que as lembranças daquela época são idealizadas, mas sem dúvida foi um período de muita liberdade e deslumbramento.

 

Para se ter uma ideia, em 15 de janeiro de 1985 o Brasil consolidava sua tão almejada democracia, com o presidente Tancredo Neves eleito nesse dia, ainda que de forma indireta. E esse foi justamente o dia do show do Barão Vermelho no primeiro Rock in Rio. Acontecimento mais simbólico, impossível.

 

Na ocasião, Cazuza fez breve discurso e dedicou a canção “Pro dia nascer feliz” a esse momento. E aqui cai uma lágrima desse roqueiro velho saudosista. Ao vermos o Brasil de hoje, e o rock relegado a um nicho, só nos resta mesmo apelar para a nostalgia daquele tempo em que tudo parecia possível e a juventude brasileira ia mudar o país.

 

Coisa linda de se ver também é a afinidade que tinha a dupla Frejat e Cazuza, uma união de almas imperdível e improvável. Quando Frejat se emociona ao executar “Todo amor que houver nessa vida”, fica mais do que claro que a relação dos dois era especial.

 

 

E ainda bem que fizeram as pazes antes da morte de Cazuza. Frejat ficou magoado com o amigo, que abandonou o grupo no auge e levou várias músicas para a carreira solo. Mas a capacidade de superação de Frejat de levar em frente o posto de frontman já é histórica, e a adaptação a essa nova fase é bem mostrada no documentário.

 

Nessa parte do doc é que destacam-se as chegadas do guitarrista Fernando Magalhães, para apoiar Frejat, e o percussionista Peninha, falecido recentemente. Também merece destaque a passagem do baixista Dadi, depois substituído por Rodrigo Santos. Aliás, momento bonito de Santos é quando ele relembra que estava no fundo do poço por conta das drogas, se recuperou e segue hoje limpo.

 

 

Não podiam faltar as histórias por trás do álbum de covers intitulado apenas “Álbum”, de 1996, quando a banda estava mal de popularidade, ia fazer um disco só para fechar contrato com a gravadora e acabou sendo um sucesso retumbante, graças à “modernização” da imagem da banda e do som.

 

Essa fase, depois bastante criticada pelos fãs mais radicais, seguiu em frente com “Puro êxtase”. Mas anos depois a banda voltaria com o excelente “Barão Vermelho”, de 2004, seguido de um ao vivo da MTV. O bem-sucedido “Balada MTV” (1999) também ganha destaque.

 

 

Dos anos mais recentes, é legal ver o grupo reunido para a gravação da canção “Sorte e azar”, em 2012, que recupera áudio inédito de Cazuza e serviu para o relançamento do primeiro álbum.

 

Presença muito especial e fundamental para a existência e sobrevivência do Barão, o produtor Ezequiel Neves, o Zeca, é bastante lembrado no doc. Responsável pela revelação de Cazuza, Zeca morreu em 2010, por complicações decorrentes de um tumor no cérebro. Em outra cena tocante, Frejat confessa que se lembra do amigo todos os dias.

 

E é assim, com tantas emoções, que ficamos com essa lição de vida e de rock, responsável por trazer tanto orgulho aos brasileiros.