Texto por David Dilkin.

 

 

“Quero me tornar um astro do rock”
“Mas por quê?”
“Porque astros do rock pegam muita mulher”

 


Não é nada incomum no meio do rock nos depararmos com esse tipo de pensamento tóxico. Mulheres, e qualquer um que não seja o estereótipo perfeito de um hetero troglodita acabam por sofrer muito preconceito na cena, mesmo que de forma velada.

 


Mas e se nos déssemos a oportunidade de explorarmos mais essa cena, e sair do cinza revólver que é o rock n’ roll, e o heavy metal? E se o arco-íris desse as caras nesse meio tão preconceituoso e machista?

 


É com essa premissa que os californianos da Pansy Division (trocadilho jocoso com Panzer Division) chegaram ao mercado, há quase 30 anos atrás… Mais precisamente em 1991. 

 


Em São Francisco, Jon Ginoli e Chris Freeman (homossexuais assumidos) frustrados com a falta de representatividade LGBTQ no meio do Rock, se conhecem, e resolvem montar uma banda que abordasse com bom humor, mas também com seriedade a questão.

 


Assim ganhava muita força a cena Queer rock, ou Gay Punk, nascida em meados dos anos 80. Nem mesmo a indiferença da crítica mainstream e o tratamento da cena rock como um todo, os tratando como bruxas na inquisição católica, tiraram o ímpeto visionário de Ginoli e Freeman.

 


E os louros começaram a brotar logo em seguida, com turnês com bandas como Green Day e apoio público de figuras pesadas da cena, como o fundador do Dead Kennedys, Jello Biafra.

 


O grupo começava a chamar a atenção, e mesmo com a névoa do preconceito continuando pesada sobre a banda, rapidamente eles espalhavam sua mensagem por toda a sua terra natal, historicamente conservadora.

 


Inicialmente como um power trio, Ginoli, Freeman e o recém recrutado baterista Jay Paget, é lançado o debut da banda, o espirituoso Undressed, em março de 1993.

 


Tendo como singles “Boyfriend Wanted” “Cocksucker Club” e ainda contando com a releitura de Rock N Roll High School do Ramones, aqui chamada de “Rock and Roll Queer Bar”, o álbum foi muito bem recebido pela crítica independente, e chegando a receber 4,5 estrelas da Allmusic, que elogiou ferrenhamente a coragem, e pioneirismo do trio.

 


Devido a boa aceitação do debut a banda assina com a gravadora Lookout Records, lhes rendendo mais quatro álbuns: Deflowered, de 1994, Pile Up, de 1995, Wish i’d taken Pictures de 1996, e o introspectivo e denso Absurd Pop Song Romance de 1998.

 


Com a explosão do movimento pop punk a banda foi convidada para ser suporte do Green Day na turnê americana do álbum Dookie, em 1994. E com o supracitado Pile Up, vieram vários covers e releituras de clássico do rock americano. Entre eles “Cowboys are frequently secretly fond of each other” de Ned Sublettle, e "Smells Like Queer Spirit", versão deles de Smells like Teen Spirit, do Nirvana.

 


E com a chegada do album Absurd Pop song romance veio o convite para abrir o show dos gigantes do punk, Rancid, em 1998, em sua turnê Life Won’t Wait.

 


Depois de romper contrato com a Lookout Records em 2001 a banda fecha com a Alternative Tentacles, e lança o sexto álbum “Total Entertainment, em agosto de 2003”, e só voltariam a estúdio em 2009, com o sétimo, e último álbum até aqui, That’s so Gay.

 


Ainda tiveram em meados dos anos 2000 um dvd lançado em 2006, com o nome de The Essential Pansy Division, e uma autobiografia documental do frontman Jon Ginoli, chamada “Pansy Division: Life in a Gay Rock Band”.

 


Mesmo sem lançar novos álbuns desde 2009, a banda continua ativa até os dias atuais se apresentando regularmente, com mais frequência na América do Norte.

 


E o projeto que foi criado quase que como uma brincadeira entre dois homossexuais de São Francisco, se tornou um dos arautos da comunidade LGBTQ, mostrando que é possível sim ter diversidade na cena rock n’roll como um todo, e que mesmo que você não partilhe dos mesmos interesses pessoais que a grande maioria, sua música pode sim ser ouvida…

 


O recado dado pelo Pansy Division ao meio opressor, e muitas vezes retrógrado que estão inseridos é que não importa se você gosta de meninos ou de meninas, o sentimento que nos une é o mesmo. O amor pela rebeldia e o oxigênio que corre em nossos pulmões não tem diferença alguma, e se você quer transgredir um sistema, tudo que precisa é ter uma guitarra em mãos, gana de fazer barulho e incomodar pessoas.

 


E não se preocupe, assim como ouvir Ghost não te tornou satanista e Slayer não te tornou em um serial killer, ouvir Pansy Division não vai te tornar homossexual. E com as palavras de Ginoli depois de sofrer uma cusparada em um show em Memphis, Tennessee em 1995 despeço-me: 
“That’s the best you can do? Bring it on, bitch! Cause we are not goin to quit”.

 


PS: A rebeldia e a adrenalina do rock n’ roll não tem cor, bandeira, ou rosto, é nossa para moldarmos a cada dia mais. Mais forte, e conectada. Deixe aqui seu amor por esse gênero maravilhoso, leve consigo seu preconceito.
#PansyRules