Por Daniel Ribeiro.

O ano era 1984 e tudo estava dando certo para o Marillion. Seu último trabalho, o Fugazi, havia chegado a disco de ouro no Reino Unido, marcando também a estreia do ótimo baterista Ian Mosley. Nesse disco, o quinteto conseguiu encontrar finalmente o equilíbrio perfeito entre suas baladas mais curtas e as composições mais longas, mais típicas do início da banda. Somente para ilustrar, o Fugazi surpreendeu o “mundo prog” com seu brilho, principalmente por ter sido lançado numa década após o auge do estilo. Bem, depois de um belo trabalho, o Marillion precisava dar um passo mais ousado, ou corria o risco de ser mais uma banda a ser engolida pelos anos 80 e escanteada nas paradas de sucesso.

Qual caminho a seguir?

Inacreditavelmente, foi anunciado à época pela ONU que 1985 seria o “Ano Internacional da Juventude”, algo que talvez tenha a ver (ou não) com o fato que aquele grupo de músicos faria o mais incrível álbum conceitual que explora a essência da infância. Um álbum que fala sobre depressão, desgostos e aquele saudosismo das facetas dessa fase da vida em todas as suas formas. O nome desse belíssimo retrato é Misplaced Childhood.

Na turnê do álbum, a banda frequentemente abria o show falando: “Agora vamos tocar uma música pra vocês, ela se chama Misplaced Childhood”, e seguiam tocando o disco na íntegra. O que poderia ser encarado como uma piada ou brincadeira, na verdade é uma forma do Marillion de mostrar, de forma leve e esplêndida, que o trabalho deveria ser degustado como um todo, de forma singular. A banda une todas as músicas usando transições instrumentais bem leves, às vezes até infantis, conectando todo o álbum como uma música só.

O Misplaced Childhood começa com uma faixa melodiosa e leve chamada Pseudo Silk Kimono, dando deixa pro ouvinte curtir a belíssima voz do Fish, enquanto introduz alguns temas sombrios que irão se desenrolar em grande parte do álbum. Mas você ainda não ouviu nada… Essa faixa é só um mero vislumbre do que ainda está por vir. A próxima, Kayleigh, é, por falta de melhores adjetivos, uma perfeição do pop-rock. Ela começa com uma guitarra melódica, meio “bittersweet” antes de romper com as lembranças nostálgicas cantadas pela banda.

As letras permanecem fiéis ao espírito da infância, aquela fase da vida onde, naturalmente, não ligamos muito pras coisas que estão acontecendo, vivemos no nosso próprio mundo. É um tempo em que se pode aproveitar a simplicidade e o descuido que só a falta de responsabilidades nos dá, sendo a época onde desfrutamos os prazeres da vida com intensidade e sem limites. Claro, é a época que todos nós, adultos, lembramos com saudade soturna. Por essas razões, Fish abandona qualquer objetivo de complexidade lírica e foca sua atenção para a criação de letras mais melancólicas e viscerais, propositalmente tentando encarnar a essência da infância de forma lírica. Cada música (e todas elas) tocam aquela criança que existe dentro da gente, seja através da simplicidade afetuosa de Lavender conduzida pelo seu piano ou a resolução sacramentada em Childhood’s End. O álbum varia substancialmente no espectro emocional, já que o conteúdo das letras pode ser meio desordenado, talvez culpa da viagem de LSD que inspirou as composições. Frequentemente me pego enxugando lágrimas de alegria com a mão já encharcada de lágrimas de angústia.

Devido à ênfase nos vocais, os outros instrumentistas podem parecer um pouco apagados durante o disco, especialmente se você considerar que é um disco de prog. Mesmo o épico de quase 10 minutos, Blind Curve, coloca instrumentais maravilhosos em segundo plano, algo inédito em épicos do prog-rock, mas é bom ressaltar que esse álbum foi concebido para comemorar uma época em que a simplicidade reina. Ficar preso nas complexidades e excessos do estilo seria uma contradição fatal para o que esse disco representa. Porém, mesmo com essas limitações, outros músicos tem momentos pessoais imensos, como o guitarrista Steve Rothery que espalha alguns solos maravilhosos ao longo do álbum, o mais notável deles durante 2 minutos de Blind Curve, onde ele desfila seu talento com paixão, elegância e sinceridade.

Misplaced Childhood, um disco que poderia ter se perdido no meio daquele som “brega” dos anos 80, mas ao contrário do seu nome, nunca se sentiu deslocado entre os grandes álbuns conceituais do rock.