Por Talles Garcia.

 

A voz do meu pai esteve presente em todos os momentos em que meu espírito ameaçava se quebrar. Ele sempre soube pesar a relevância de uma ligação minha apenas ouvindo minha voz, e quando a sentia pesada demais, repetia a mesma história. Como agora.

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      Na minha infância, não muito longe da velha casa em que morávamos, havia um lago escondido entre as árvores. Meu pai sabia o quanto eu gostava de ir lá e sempre me levava quando queria dividir comigo algo que ele próprio gostava. Pescávamos, conversávamos sobre o futuro e, na maioria das vezes, ficávamos ouvindo música e tentando entender as letras, e esse era nosso momento juntos. Aos poucos ele descobriu que as canções mais inventivas me chamavam mais atenção, e instigou minha curiosidade sobre quem as escrevia.

      Tom Fogerty era um gênio por escrever histórias em forma de música, dizia meu pai. Conversávamos sobre as pontes douradas que o menino indiano viu e sobre o leprechaun de Avalon. Ele me contou que Fogerty morrera anos antes, assim como muitos dos cantores que ouvíamos, e eu absorvi a informação da maneira superficial e distante que tratamos a morte quando somos crianças. Eu tinha uma visão fantástica e etérea sobre cada um, e o fato deles não mais existirem tornava-os figuras distantes e intocáveis. Charles Chaplin, Sinatra e outras personalidades tão longínquas no tempo pareciam, pra mim, à mesma distância que personagens ficcionais. Pessoas mágicas escondidas além do mundo que eu conhecia.

      Meu pai então me disse que Tom Fogerty e eu coexistimos durante uns 3 anos. Ambos vivos ao mesmo tempo. Ele me fez acreditar que poderíamos ter pego um avião e ido visitá-lo, que Tom Fogerty poderia ter me segurado no colo e cantado pra me fazer dormir.

      Bem, isso definitivamente mudou meu modo de ver o mundo.

      O que eu montara em minha cabeça como inalcançável tornara-se tão real e palpável como eu e meu pai, logo ali. O mundo deixara de ser um lugar simplório com portais escondidos para outros mundos fantásticos e intocados, e passou a ser… um mapa. Eu poderia sim andar em alguma direção e encontrar, apertar a mão e receber palavras diretas para minhas perguntas das bocas de pessoas mágicas. E o melhor: Eu poderia, talvez, ser uma delas.

      Nem o menino indiano da canção vislumbrou uma ponte tão dourada como aquela.

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      Eu tive que aprender a resolver problemas ao longo da vida. Achar a inspiração e arrastá-la comigo. Acho que aprendi isso com meu pai. Que ela vem de qualquer lugar. De qualquer um, para qualquer um.

      A necessidade de permanecer sempre inventivo acabou, ironicamente, me tornando dependente de uma história repetida. Essa lembrança ditada pelas palavras do meu pai pesava em mim mais do que qualquer coisa. Me lembrava de momentos fáceis, revigorava minha perseverança e, às vezes, servia apenas como uma canção pra ninar uma mente tempestuosa.

      Quando meu pai terminou de contá-la ao telefone, fez-se um breve silêncio. O peso que ele percebera na minha respiração, no início, parecia não estar mais lá. Mesmo assim, por algum motivo, ele sempre se desculpava no fim. Dizia que adoraria ter uma história nova pra me contar, mas como eu mesmo sabia, ele era um homem velho. Não consigo aprender mais nada e só tenho o passado pra onde olhar, ele dizia, com a voz cansada da idade.

      Olhar para o passado talvez não fosse nada demais. Tão banal talvez quanto sentar à beira do lago perto da velha casa, mas quando eu e meu pai o fazíamos juntos, aquilo se tornava algo bem maior. A minha inspiração sempre esteve com ele, no fim das contas. Ele foi a primeira e mais importante pessoa mágica que conheci.
 

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