Pet Sounds – But let´s talk about it…

Data: 19/10/2017

 

Por Daniel Ribeiro.

16 de Maio de 1966 – Depois de um ano de dedicação exclusiva, trabalhando cada minuto na sua obra prima, o magnum opus de Brian Wilson foi revelado ao mundo, causado reações das mais variadas. Nos EUA, as reclamações foram enormes, pois o que se esperava eram hits sobre verão, canções de amor sobre garotas (como Don’t Worry Baby ou Surfer Girl) da banda que melhor soube explorar o estilo “Iê-Iê-Iê”. A Capitol, selo da banda, mal promoveu o disco, alegando que o mesmo venderia naturalmente, baseado na ótima reputação da banda, o que resultou no Pet Sounds estreando em 106º e chegando ao seu auge no 10º lugar, ficando abaixo do esperado em praticamente todas as paradas americanas. Já do outro lado do Atlântico, a Terra da Rainha era só elogios ao álbum, elevando-o diretamente a 2º lugar nas paradas em sua estreia. O comentário entre os músicos ingleses era de que o álbum dos garotos americanos era revolucionário e genial.

Mais de 50 anos após o seu lançamento, está provado que os ingleses estavam completamente corretos sobre o álbum. Chama-lo de genial, revolucionário, game-changer, inovador, é até meio cansativo e redundante no entanto, correto em todos os aspectos. Antes do lançamento de álbuns como Rubber Soul dos Beatles e Pet Sounds, a música pop era focada na venda de singles, sendo os discos um aglomerado de singles e algumas músicas para completar os 2 lados do vinil. A história que se conta é que o Brian Wilson, após ouvir o Rubber Soul, o qual ele declara ser o momento que mudou sua vida, ele corre para a sua esposa Marilyn e afirma que fará o maior disco da história. Ele tinha à sua disposição os fantásticos músicos do The Wrecking Crew (para quem não os conhece, vale à pena assistir ao documentário de 2008) e então partiu para realização de seu objetivo. Durante o começo de 1966 Wilson conduziu minuciosamente sessões árduas, trazendo de volta e rearranjando algumas músicas que já haviam sido gravadas anteriormente (I’m Waiting for the Day, em 1964, por exemplo) enquanto também trabalhava nos complexos arranjos vocais, superando inclusive a ausência dos outros Beach Boys que estavam em turnê no início das gravações do disco. O gênio Brian Wilson aproveitou também essa ausência e acelerou o máximo possível a produção do disco com suas novas composições (o restante da banda não concordava muito com a mudança, afinal, o time estava ganhando) e o Pet Sounds como conhecemos estava completo.

A abertura lúdica e tensa de “Wouldn’t it be Nice” já dava uma pequena amostra de que a mudança de direção era evidente, porém ainda sutil. Considerando que o arranjo da música é otimista e alegre, o tema lírico de dois jovens namorados que desejam estar juntos, e que não podem por causa de sua idade é algo que não era novo no repertório da banda ("I'm So Young" vem logo à mente) e não é exatamente algo controverso hoje, mas provocou uma bela quantidade de reações negativas após seu lançamento nas parcelas mais conservadoras da sociedade americana. A reação que obteve, no entanto, foi insignificante em comparação com a que obteve "God Only Knows”. Em algumas partes dos EUA, vários ouvintes ficaram indignados com o uso da palavra “Deus” em uma música pop, e algumas rádios até se negaram a tocar a música por causa de sua letra cheia de “blasfêmias”. Além da controvérsia dessas duas músicas, o conteúdo lírico do disco e seus arranjos musicais era bastante ambicioso e complexo. O Beach Boy Mike Love descreve esse álbum como “a música-ego de Brian”, o que podemos comprovar quando vemos que os temas se apoiam fortemente na dúvida, no amor, na fé e na alienação, tudo perfeitamente em paralelo com os sentimentos de Wilson na época e à sua personalidade peculiar.

O lirismo, em alguns pontos, chega a ser doloroso ("Could I ever find in you again/things that made me love you so much then"), depressivo ("Each time things start to happen again/I think I got something good goin' for myself/but what goes wrong?") e em alguns pontos até desprovido de esperança (a inspiração para “I Just Wasn’t made for These Times” foram os sentimentos atormentados por causa de um amor perdido por Wilson, cantados em “Caroline, No”). Em termos de musicalidade, o Pet Sounds foi extremamente inovador. Em várias músicas, como “That’s not me”, “I Know there’s an Answer” e “Caroline, no”, existe um padrão de introdução gradual da percussão, permitindo que os arranjos disponham de mais espaço para “respirar”, dando também mais ênfase no vocal da banda. Em outras músicas como “I Just Wasn’t made for these Times”, o teremim é o elemento alienígena na composição, retratando perfeitamente a crescente depressão e alienação de Wilson de tudo que o cercava; em “Don’t talk (Put your Head on my Shoulder)” o som dominado pelo órgãos mostrou a voz desesperada de Brian Wilson cantando sobre um romance em deterioração, cantada na ausência de alguns músicos de sessão e também dos outros Beach Boys.

Os dois instrumentais, "Let's Go Away For A While" e "Pet Sounds" são inovadores, não só pelos seus arranjos sofisticados, mas pelo fato de serem mais do que meros “fillers”, mas peças totalmente desenvolvidas que desempenharam seu papel no produto final, em uma época em que os instrumentais deveriam completar o tempo médio de execução do álbum pop ("Denny's Drums" do Shut Down Volume 2 é um exemplo desta prática). Por fim, para a música pop em 1966, a grande variedade de instrumentos (e vários objetos encontrados, como garrafas de Coca, sinos de bicicleta e os cachorros de Wilson) é bastante experimental em comparação com os discos de contemporâneos da banda. Graças ao perfeccionismo de Wilson na cabine de controle, os arranjos se provaram muito além de seu tempo e causaram com que muitos outros grupos da época, incluindo uma certa banda de Liverpool, trabalhassem para melhorar suas habilidades e aumentar seu grau de inovação e experimentação para alcançar Wilson e os Beach Boys. Sem este álbum, a música pop como a conhecemos em 2017 seria muito diferente. Sem Pet Sounds, a probabilidade de outros músicos encontrarem coragem e inspiração para experimentar, crescer como músicos, se tornaria minúsculo. A influência do álbum é grande e de grande alcance.

O álbum é o centro genial da tríade que mudou a música: Rubber Soul – Pet Sounds – Sgt Peppers.

Durante todo esse tempo, o Pet Sounds desenvolveu sua própria legião de fãs e todos nós temos alguma conexão com o álbum, de uma forma ou de outra – seja pessoal ou não. Os temas e mensagens que Wilson falou ao longo do álbum conseguiram tocar as pessoas emocionalmente, eu mesmo sendo um deles. O que separou Pet Sounds de outros álbuns do período, além do som e do lirismo, foi a honestidade e a vulnerabilidade das músicas. Em nenhum outro lugar, você ouviria alguém cantar tão desesperadamente ou apaixonadamente como Carl Wilson fez em "God Only Knows"  (e o Sir Paul McCartney concorda plenamente com isso) ou se relaciona com o ciúme e a solidão do Mike Love em "Here Today" e "That's Not Me" ; ou se sente aliviado, mas impressionado com a compaixão e a fé que alguém pode ter nos outros como "You Still Believe in Me".

Cinquenta e um anos depois, a emoção em Pet Sounds ainda é tão potente quanto em Maio de 1966, com um efeito tal que sua influência não foi prejudicada e sim aumentou com o tempo, sobretudo em seu país natal onde foi rejeitado por ser muito emocional, muito dramático e, acima de tudo, muito diferente. Ser diferente nunca prejudicou ninguém, e não seria agora que iria prejudicar não é?

 

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