Afinal, o que o amor tem a ver com isso?

Data: 03/08/2017

Por Daniel Ribeiro.

No momento do divórcio, Ike Turner nem queria que Tina Turner mantivesse seu sobrenome.

Nascida como Anna Mae Bullock em Nutbush, Tennessee, ela recebeu seu nome artístico de Ike no início do relacionamento entre os dois. Já no final, ela estava tão ansiosa para se afastar dele que se rendeu a qualquer reivindicação para registrar royalties, direitos de publicação e qualquer outra coisa, exceto o “Tina Turner”, nome pelo qual ela contou ao juiz que havia trabalhado muito para construir. “Esse nome tem o sangue do meu pai escrito em toda parte”, protestou Ike. Porém, seria mais preciso e correto dizer que o nome havia sido escrito com o próprio sangue de Tina.

“What’s love got to do with it” é uma das mais angustiantes e descomprometidas com a romantização das biografias de artistas que já vi. É tradicional nesse tipo de filme mostrar o artista passando por momentos difíceis para finalmente chegar à fama, mas poucos passaram por momentos mais complicados que Tina. O filme mostra Ike, com ciúmes de seu talento e personalidade, transformando-se em um marido violento e a fazendo passar por situações muito piores do que qualquer mulher deveria passar, e por muito mais tempo do que qualquer uma poderia aguentar.

O filme começa com um prólogo onde a pequena Anna Mae consegue cantar bem mais alto do que qualquer outra pessoa no coral da sua igreja. Alguns anos mais tarde, em St Louis, ela vê Ike Turner no palco e fica intoxicada pelo seu encanto e atitude. Este costumava convidar mulheres da plateia para cantar algumas notas com sua banda no palco logo depois as mandava embora.

Porém, quando Anna Mae subiu ao palco, nunca mais ela desceu, e logo após, inocentemente e sem conhecer o mundo no qual ela estava entrando, se encontrava em turnê com Ike e sua banda.

Angela Basset é Tina e Laurence Fishburne é Ike no filme; ela ardente e convincente como a cantora e ele em uma performance poderosa, capaz de nos mostrar o charme e todo o lado violento de Ike.

Quem canta no filme é a Tina Turner “original”, mas as performances das músicas de Basset estão tão sincronizadas, não apenas nos lábios, mas fisicamente, com a personalidade e a alma da cantora, dando a impressão de que estamos assistindo a Tina se apresentando.

À medida que os dois começam a alçar voos mais altos e a dominar o show business, com discos de platina e shows lotados em Vegas, nadando em dinheiro, sua vida pessoal começa a se transformar num pesadelo. O filme mostra a jornada de Ike na cocaína, exibindo sua infinita série de namoradas e sujeitando Tina ao abuso verbal e físico. Alguns amigos a aconselham a ir embora, mas a maioria das pessoas ao seu redor, intimidada por Ike ou grata pelo seu generoso suprimento de drogas, estimulam a relação dos dois.

Uma das cenas mais angustiantes do filme se dá quando, em uma noite, Ike agride Tina mais uma vez, e ela, sangrando e extremamente maltratada sai do hotel e atravessa uma rodovia até um Ramada Inn onde diz: “Meu nome é Tina Turner, e meu marido e eu tivemos uma discussão. Tenho 32 centavos no bolso. Se você me arranjar um quarto, eu prometo te devolver o quanto antes”. O gerente lhe dá esse quarto. Essa cena é bem emblemática pois a própria cantora escreveu em sua biografia que sempre será grata ao Ramada por ter lhe dado abrigo nesse momento de desespero.

O que mais surpreende, é que a cena não simboliza o fim do relacionamento de Tina e Ike. O filme se mantém firme na proposta de mostrar que Tina, como várias mulheres vítimas de violência, inventa desculpas para justificar o comportamento de seu marido e acredita em suas explicações absurdas, lhe dando sempre uma nova chance, mesmo quando todos achamos que aquilo tudo já seria mais do que suficiente.

Finalmente, ela encontra forças na meditação Budista para resistir e lutar contra tudo aquilo que estava passando, sendo bem representado numa cena do filme onde ela estava prestes a entrar novamente numa grande discussão, Ike passa pela segurança e entra em seu camarim com uma arma, nesse momento ela é tomada por uma grande força interior para encará-lo e não cair nas provocações, subindo ao palco apesar de tudo que tinha acontecido.

“What’s love got to do with it” tem uma trilha Sonora fantástica (incluindo as participações originais da Tina), mas não é um épico de showbizz tradicional. É uma história de dor e coragem, incomumente honesta e inabalável, fazendo com que qualquer pessoa que vá ouvir Tina Turner após assistir a esse filme, a veja e ouça de forma completamente diferente.

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