Fleetwood Mac: Rumours, muito mais que um álbum de rock

Data: 05/07/2017

Por Daniel Ribeiro.

Se formos analisar, é um milagre Rumours não ter sido um fracasso total e afundado antes mesmo de ser lançado. O contexto do Fleetwood Mac era o seguinte: você tinha dois casais lutando internamente – John e Christine McVie recentemente divorciados, enquanto Lindsey Buckingham e Stevie Nicks (os últimos a chegarem à banda) estavam numa relação de idas e vindas – sem contar que o baterista, Mick Fleetwood, estava sendo super corno e era o único que não sabia disso. Bem, talvez os únicos momentos nos quais a banda estava unificada e sincronizada foram durante os assuntos musicais, como composição e gravação, mas a verdade é que não havia socialização entre eles fora do estúdio.

Fleetwood Mac deveria ser uma das bandas mais populares da época, após o lançamento de seu “álbum branco”, o homônimo, de 1975, o que levou a muitos rumores (daí o título do álbum que falaremos em breve) e fofocas da mídia em relação aos seus problemas internos. Basicamente, tudo em torno do Rumours foi uma bagunça, no entanto, apesar de tudo, eles conseguiram passar por cima e trouxeram o seu melhor para, o que muitos consideram, ser um dos maiores registros da história da música pop ou rock.

Os fatores da qualidade do álbum são inúmeros para serem contados aqui, mas eu ressalto o apelo popular do disco e a diversidade de sons.  Os dois McVies e Mick Fleetwood eram da formação original da banda (aquela com o genial guitarrista Peter Green), enquanto Lindsey Buckingham e Stevie Nicks chegaram bem depois. Essa mistura de elementos do blues que já eram uma característica da banda e de seus membros britânicos e combinada com o gosto de Buckingham e Nicks pelo rock e folk dos anos 50/60 provou ser explosiva. Se você quer ouvir uma música pop genuína, ouça “Dreams”; um folk? “Never going back again”. Um hard rock com pegada? “Go your Own way”. E se quiser uma combinação de todos os 3, ouça “The Chain”.

A verdade é que há um tipo de som para todos os gostos nesse disco, não importa a sua preferência. Os vocais e a composição são divididos entre Lindsey Buckingham, Stevie Nicks e Christine McVie, todos oferecendo seus toques pessoais e únicos para as composições e interpretações. As músicas da McVie são mais otimistas e proporcionam uma atmosfera  contrastante das composições mais introspectivas da Stevie Nicks. Já Buckingham é o meio-termo da banda, geralmente combinando um som mais animado com várias guitarras e efeitos preenchendo a música e a tornando bem mais elaborada.

Instrumentalmente, tudo é extremamente sólido e unificado. Não há enrolação na guitarra do Buckingham, o guitarrista opta pelo que melhor se encaixa em cada música, enquanto a cozinha de McVie e Fleetwood faz seu papel de forma brilhante, ambos sendo bastante sutis e mais uma vez, não querendo se destacar mais do que a música em si, o que talvez seja a beleza maior do álbum. O piano e vocais de Christine são graciosos e dinâmicos em cada faixa, apesar de bastante variados, e, finalmente, Stevie Nicks, que realmente não precisa ser mencionada, pois seu nome fala por si. Porém, em se tratando de vocal ela atinge um nível muito acima de todos os outros integrantes (talvez porque sua contribuição para esse álbum tenha se focado na voz). Bom, como já falei, a beleza do álbum está na unidade de todos os elementos e sua harmonia perfeita (exceto em faixas mais dispersas como Songbird e Never Going Back Again).

Então, o que torna esse álbum tão conhecido e lendário? Eu diria que tem a ver com a perfeição técnica e talvez algo mais intangível. As músicas estão encaixadas de forma perfeita, cada uma no seu devido local, e o mesmo podemos falar da parte instrumental e vocal.  Tem alguma música “filler”? Com certeza não! A posição de cada música é cirurgicamente pensada para atingir todas as camadas de emoções e dar dinâmica à obra. Quanto ao elemento intangível, talvez seja o fato de a banda estar tão dedicada e atenciosa àquele disco, e isso percebemos na interpretação de Christine McVie em Songbird no seu piano, e em todo o carinho que ela emana para seu marido, independente dos conflitos. O mesmo vale para Dreams (que alguns conhecem a regravação do The Corrs), na qual a frustração da Stevie Nicks com seu conjuge é canalizada perfeitamente dentro dos versos, enquanto ela recita a (fria) realidade de sua relação. É aí que mora a beleza de Rumours. Não se trata apenas de ótimas músicas, com letras maravilhosas, mas sim de falar de amor de uma maneira tão real e significativa, pois era aquilo que todos estavam passando naquele momento.

Pra mim, essa obra é uma representação atemporal do amor, aquela que não é retratada nas músicas românticas, mas sim a que passamos na vida real. Talvez os rumores realmente digam respeito à banda colocando todas as emoções na mesa e não escondendo os que sentem uns pelos outros.

Rumours não é apenas um álbum perfeito em nível musical, mas em todos os níveis imagináveis.

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