Sepultura Endurance: um exemplo de persistência.

Data: 16/06/2017

 

Por Carlos Augusto Monteiro.

Aceitar a inevitabilidade das mudanças para conseguir sobreviver. A lição, que pode servir a qualquer situação da vida, se aplica com perfeição ao recado que o Sepultura pretende passar ao longo de seu documentário Sepultura Endurance, que teve pré-estreia na última quarta-feira (14) em cinemas de todo o Brasil.

O longa, que entrou em cartaz a partir de 15 de junho, é dirigido por Otavio Juliano, de “A árvore da vida” (sobre o uso de pau-brasil para confecção de instrumentos). Narra a trajetória da mais importante banda de heavy metal brasileira ao longo de seus 30 anos de história.

A produção mostra a rotina dos integrantes da banda em turnê, os conflitos, o processo de criação das músicas e da gravação dos álbuns, cenas de shows e de bastidores além de diversas entrevistas e imagens de arquivo inéditas.

Eu sei. Você quer saber sobre a polêmica de sempre envolvendo a saída dos irmãos Cavalera. Pois ela está bem presente, a começar pela recusa de ambos de participar do documentário. E, além disso, Max e lggor proibiram, segundo o diretor, o uso de músicas das quais são coautores, com base na Lei de Direitos Autorais.

Mas, quer saber? O documentário disfarça bem esse obstáculo e quase não se percebe o resultado da “pirraça” dos irmãos.

Esse comportamento, aliás, é um sinal claro de que as cicatrizes da separação ainda são grandes.

O rompimento é tratado sem reservas por Andreas Kisser no documentário. Glória, a mulher de Max e ex-empresária da banda, é apresentada como uma Yoko Ono do metal, principal responsável por “fazer a cabeça” do marido para abandonar a banda com objetivo de encarar uma carreira solo, ou pelo menos uma banda em que estivesse mais à frente, como no caso do Soulfly. A crença no sucesso dessa estratégia, diz Kisser, seria evidenciada pela tranquilidade de Max em nem brigar pelo direito ao nome Sepultura na ocasião de sua saída.

Um momento que dói no coração de todos nós é o depoimento de Phil Anselmo (Pantera/Down) lamentando que o Sepultura, após o enorme sucesso de “Roots”, estava se igualando aos grandes do metal, como Metallica e Slayer, fato evidenciado por capas de revista da época, ilustrando a importância das bandas de igual para igual.

São inegáveis o carisma e talento que se perderam com a saída de Max em 1996 e de seu irmão lggor, dez anos depois. Mas a conclusão a que se chega é que o Sepultura escolheu conscientemente sobreviver a todo o custo, ainda que tenha se tornado uma banda “menor” que antes.

O preconceito com a entrada de Derrick Green, combatida até pela gravadora, mostra uma situação que o próprio vocalista relata ter vivido em toda a sua vida como fã de rock. Na adolescência, o fato de ser negro provocava reações absurdas em pessoas que acusavam-no de querer cantar como um branco e de querer falar como um branco, pelo fato de ser articulado e não apelar para o estilo melódico que caracteriza a black music em geral.

Vendo a dureza dessa batalha, é impressionante quando se pensa que já são 20 anos de carreira de Derrick no Sepultura, contra 12 de Max.

"Sepultura Endurance” percorre toda a carreira da banda, desde o inicio em Belo Horizonte. E surpreendentemente dedica bom espaço à época dos álbuns da era Max. Grandes momentos do documentário são os depoimentos elogiosos de importantes  nomes do metal, como Lars Ulrich, Phil Campbell e Corey Taylor, além de personalidades brasileiras como Serginho Groissman e João Gordo.

O geralmente calado Paulo Jr. mostra-se muito engraçado em diversos trechos, como quando relata que no início faziam “turnês” de sete noites durante todo um ano, e ao mostrar o lançamento da garrafa de vinho do Sepultura, como se fosse um garçom a apresentar a garrafa a um cliente.

A narrativa é intercalada por trechos do show de 30 anos da banda, realizado em 2016 na cidade de São Paulo, com empolgantes cenas ao vivo. O som das salas, nessa hora, faz toda a diferença, o que não foi o caso da exibição no Cinemark Botafogo, cujo impacto deixou a desejar.

As trocas de bateristas, também, têm bastante destaque no longa, em especial  uma “DR” num ônibus de turnê pelos Estados Unidos, quando o baterista Jean Dolabella externa sua insatisfação em ficar muito tempo longe da família. Andreas surge então quase como um “pai” que aconselha um filho a seguir no caminho louco do rock n´ roll.

O atual detentor das baquetas, Eloy Casagrande, é mostrado como o talento prodígio que foi, ganhando prêmio da Modern Drummer aos 14 anos de idade.

No entanto, o documentário peca por não englobar o lançamento de “Machine Messiah”, o mais novo álbum da banda, sucesso de público e crítica. Mas é como se “Endurance” e “Machine” se complementassem para comemorar o momento pelo qual passa o Sepultura.

O filme serve assim para valorizar a saga e o esforço que todos fizeram para levar a banda adiante. Enquanto isso, os irmãos Cavalera seguem com sua turnê mundial de comemoração dos 20 anos do álbum “Roots”.

Quem está vencendo a batalha do tempo? E será que os caminhos desses metalheads um dia vai se encontrar?

"Endurance” tem o objetivo de mostrar que o Sepultura é uma banda vencedora e encontrou seu caminho enfrentando adversidades aparentemente intransponíveis.

Como bem se aplica, é claro, a uma banda brasileira de heavy metal que conquistou sucesso internacional.

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