With a Child´s Heart – Uma homenagem ao Michael Jackson

Data: 14/06/2017

 

Por Daniel Ribeiro.

25 de Junho de 2009… foi a segunda vez que vi meu pai chorar na vida.

Michael Jackson passou seus últimos anos se transformando numa versão cada vez mais bizarra de si mesmo, parecia saído do zoológico das celebridades, mas sob aquela superfície estranha estava um cantor que tinha emergido à fama, não pela sua excentricidade ou por sorte, mas através de um talento genuinamente notável e inquestionável, que o fez conquistar o mundo diversas vezes.

Apesar de todas as suas trágicas falhas como ser humano, Jackson poderia, legitimamente, ser visto como o maior entertainer de sua geração, o sucessor natural de Frank Sinatra ou Elvis Presley.

Foi através da Motown e sua Soul Music que ele emergiu, e foi no Pop que ele impulsionou sua carreira solo, mas MJ era muito mais do que isso sugere. Aquele jovem esbelto que encantou o mundo com a coreografia de Thriller, Billie Jean e Beat It, e baladas maravilhosas regadas de lágrimas como She's Out Of My Life e I Just Can´t Stop Loving You, parecia ser uma síntese moderna de muitas linguagens musicais, do rock à disco music, das mais belas canções de amor ao melhor da música negra.

Bom, primeiramente e antes de tudo, ele era um grande (GRANDE!) cantor. Quando os Jackson 5 explodiram na cena musical no início da década de 1970, o pequeno Michael aparecia praticamente de fraldas cantando I Want You Back, ABC e The Love You Save, seus primeiros hits, e naquele momento já se percebia que ali existia um gênio, alguém que seria impossível parar no futuro. Ouvindo “I´ll be There” , uma balada romântica que lhes deu seu quarto hit, no entanto, foi possível detectar os sinais de algo extraordinário que estava por vir.

Seu fraseamento cuidadoso e, em particular, seu vibrato único, mostraram uma maturidade extraordinária para um menino que não tinha sequer chegado à adolescência.

O que sempre me impressionou, foi que a carreira do Michael foi um Show de Truman musical. Através de seus álbuns (nos Jacksons 5, solo na Motown e na fase mais madura) poderíamos claramente perceber as suas mudanças de voz, aprimoramento técnico e também a adição de vários elementos à sua música, criando um estilo próprio, redefinindo a música Pop e mostrando ao mundo que era possível, sim, atingir a perfeição.

Jackson recriou a Soul Music quando o mundo olhava para a Disco. Ele recriou a Disco quando o mundo olhava para a New Wave. E ele redefiniu a música Pop quando todos esperavam por ele para dizer para onde a música iria nos anos 80.

Esse era o mundo em que ele se situava, claramente. Ele amava o mundo dos glitter e das divas, de Judy Garland a Diana Ross. Ele era a estrela pop da era de Steven Spielberg e George Lucas, ou ET e Star Wars, com estilo futurista, mas terminalmente sentimental em seu conteúdo.

Superficialmente, para o mundo, ele era a maior estrela de seu tempo, tendo também a incrível capacidade de trazer para seu panteão outros Deuses da música, como Paul McCartney, Stevie Wonder, Slash e Van Halen, mas no entanto, por baixo desse glamour divino, era um músico de grande criatividade e instintos extremamente aguçados, numa busca incessante pela inovação e perfeição. Seu vocal em álbuns como Off the Wall e Thriller, alguns dos seus “best sellers” (sendo Thriller o álbum mais vendido do Século XX), era tão incrível que algumas edições dos discos incluiu um livro de técnica vocal, talvez para explicar ao mundo o que era aquilo que estava acontecendo.

Os tons altos que o MJ atingia, o conectavam diretamente à grande tradição do canto de falsete que saiu da música gospel e levou a predecessores tão imediatos quanto Smokey Robinson e Curtis Mayfield. Mas Jackson foi além dessa linguagem, deixando o imediatismo emocional da música Soul para trás, pois, em colaboração com o grande arranjador e produtor Quincy Jones, ele criou uma música que iria romper todos os limites e restrições de geração e etnia. Aliás Michael Jackson transcende qualquer limite étnico, do ponto de vista concreto e abstrato.

Por incrível que pareça, à época houve especulações de que sua música se enfraqueceria ou que ele perderia sua essência por conta de seus problemas dermatológicos, ou até que ele estaria interessado em aumentar sua audiência internacional (como se isso fosse possível), “apagando” sua origem negra. Honestamente, isso foi somente mais uma bobagem que surgiu a seu respeito.

O que se passava na cabeça do Michael sempre foi objeto de especulações, boatos e acima de tudo, admiração e mistério. Nos anos 70, após os shows e programas de auditório, os Jackson 5 sempre proporcionavam divertidas coletivas de imprensa, onde os irmãos mais velhos (Jermaine, Marlon, e o resto) faziam toda a promoção do grupo, exatamente como ordenado pelo seu pai e pela gravadora. MJ, no entanto, sentava-se sozinho com um lápis e um livro, talvez um caça-palavras, e quando dirigiam a palavra àquele pequeno garoto de 12 anos, ele levantava o rosto e confrontava seu interlocutor com um par de enormes olhos castanhos que não diziam nada. Naquele tempo, apesar de tudo que estava acontecendo, ele já estava no seu próprio mundo.

Muito se especula sobre a sua infância perdida, ou sobre ao que ele era submetido desde seus 10 anos para atingir o estrelato ou realizar os sonhos de sua família. A verdade é que o Michael Jackson sempre esteve à frente de tudo e todos que o cercavam, e sua genialidade preenchia o vazio de memórias e da vida comum que ele sempre sonhara em levar. Por trás dos casacos de diamante, das namoradas famosas e da vida conturbada, até seus últimos dias, morava aquele menino dos olhos vazios e dos sonhos perdidos em meio à fama. Jackson viveu a vida de todos nós, a vida que deram pra ele, mas não viveu a vida que quis viver.

Dia 25 de Junho de 2009 foi um dia em que se pôs ponto final a uma vida que tinha glamour, agitação, estrelado e todas as conquistas materiais que qualquer pessoa poderia almejar. Naquele fatídico dia se encerrou o ciclo do (talvez) maior artista de todos os tempos, do Leonardo DaVinci da música. Michael Jackson teve tudo, conquistou tudo, mas não teve a vida que ele queria. No final das contas, ele só queria ter de volta seu coração infantil e viver, como dizia sua música, With a Child´s Heart…

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