Rito de passagem ao som de Gary Moore

Data: 05/05/2017

Por Carlos Augusto Monteiro.

Arraial d´Ajuda, Bahia, dezembro de 1994. A época e o cenário tropical perfeitos para se curtir um axé, certo?

Não… deixe-me explicar.

Foi justamente nesse ensolarado distrito de Porto Seguro, uma pequena vila famosa por suas praias paradisíacas e natureza exuberante, que me encantei pela obra de um bluesman moderno. Era o cara que, mesmo depois de anos de bons serviços prestados ao rock, em bandas como a icônica Thin Lizzy, resolveu se dedicar de corpo, alma e coração ao tradicional gênero criado pelos negros norte-americanos, descendentes de escravos.

Esse cara era o irlandês Gary Moore, que teria comemorado seus 65 anos em 2017,  não tivesse falecido por um ataque cardíaco em 2011, enquanto dormia no quarto de um hotel na Espanha, por um motivo comuns aos rockstars: excesso de álcool consumido na tarde anterior.

Com apenas 19 primaveras (e apaixonado por uma namorada que ainda ficaria cinco anos ao meu lado), dispensei o convite de uma viagem de família a Portugal para viver a aventura de visitar um amigo mais velho, professor e mestre budista, recém aportado em Arraial d´Ajuda para fugir do "sistema”.

Ajuda”, como é chamada entre os íntimos, é considerada um ponto de encontro de escritores, músicos e artistas. Ambiente perfeito para alguém como ele.

Foi justamente na casa desse amigo, entre almofadas pelo chão e muito verde em volta, que bati os olhos num CD cuja capa era uma ilustração de um violão e uma guitarra lado a lado, em posições invertidas. Era a coletânea “Ballads & Blues 1982–1994”, recém-lançada e com todas as pérolas da carreira solo de Moore.

Até então, eu só conhecia o hit “Still got the blues”, em alta execução nas rádios soft rock (e nas bregas também).

Mas ali estavam também aquela que se tornaria minha favorita, “Story of the Blues” (um dos mais lindos solos de blues que já ouvi), a bela e nostálgica “Parasienne Walkways” e a quase farofa “Always Gonna Love You”.

Gary Moore era do tipo que jogava nas onze posições do time da música. Lançou discos memoráveis de rock, blues e com influências de jazz, seja em carreira solo, seja acompanhando o já citado Thin Lizzy e também o Skid Row (que vendeu seu nome para os cabeludos de New Jersey) e o BBM (dos ex-Cream Jack Bruce e Ginger Baker).

O guitarrista era “o cara” quando se tratava de levar a emoção às últimas conseqüências, tudo isso embalado por um instrumental sensível, capaz de nos arrepiar e criar imagens coloridas em nossa mente.

Viveu uma vida boa, com muita música e emoções. Eu fantasiava com o dia em que veria um show seu aqui no Brasil. Dos guitarristas de blues, ele era sem dúvida um dos meus favoritos.

Mas, voltando a Ajuda, foi a partir dessa viagem meio hippie que, aos 19 anos, recém-entrado na faculdade de Jornalismo e naquela idade em que todos os sonhos parecem possíveis, comecei a construir a história da minha vida adulta.

Mal sabia eu dos obstáculos, decepções, derrotas e aprendizados que enfrentaria pela frente. No entanto, eu sabia também que tinha a música de Gary Moore (e de tantos outros) para me ajudar nessa jornada.

Uma jornada cheia de emoções conflitantes, como uma boa e honesta canção de blues.

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