Tudo muda, e com toda razão

Data: 03/05/2017

Texto por Daniel Ribeiro.

Uma coisa que sempre senti na vida foi a sensação de que não pertenço a lugar algum. Por ter nascido em Fortaleza, crescido em Recife e hoje morar em São Luís (com alguns intervalos fora do Brasil nesse meio tempo), me sinto visitante em todo lugar que vou. É uma sensação diferente, estranha, mas ao mesmo tempo engrandecedora.

Posso citar 2 momentos onde meu sangue cearense ferve nas veias e no qual reconheço minhas raízes, não tendo dúvidas do lugar onde pertenço: nos jogos do Ceará Sporting Club e ao ouvir Mucuripe, e por isso, obrigado meu pai, e obrigado Belchior.

Cresci numa casa onde Beatles, Queen, Creedence, Elton John e Michael Jackson dominavam 90% do tempo no toca discos Phillips cinza dos meus pais, mas nos 10% de tempo restante e em geral regados a muitas histórias dos tempos de faculdade nos anos 70, com um teor etílico que eu só viria a conhecer mais de uma década depois, davam o ar da graça alguns de nossos conterrâneos, o chamado “Pessoal do Ceará”, entre eles Fagner, Ednardo, Rodger, Tete e o hoje saudoso Belchior.

Não vou mentir, durante toda a minha infância e adolescência eu nutri uma antipatia enorme àquela figura bigoduda de voz anasalada e letras extremamente pretensiosas (e igualmente geniais). Mas essa antipatia se dava graças ao meu pai, que sempre contava histórias de quando eles eram todos jovens em Fortaleza e contemporâneos de faculdade na UFC (Universidade Federal do Ceará). Meu pai, estudante de Engenharia, tinha certa amizade com o irmão caçula do artista, e frequentava a casa do mesmo, em experiências que ele mesmo descrevia como “extremamente constrangedoras. O Antônio Carlos (Belchior famoso) se achava melhor que todos nós, era metido a poeta, e ainda fazia medicina, imagina!”. Eu sempre imaginei, e por isso passei muito tempo no #teamFagner, pois achava, naquela minha cabeça infantil, que os 2 eram rivais da época, para depois descobrir que sentaram juntos e compuseram uma das minhas músicas favoritas: Mucuripe.

O interessante sobre esse “movimento” que aconteceu no Ceará, e como o próprio Fagner descreve, é que eles eram tão distantes um do outro e andavam em direções tão opostas, que era mais fácil se encontrarem do outro lado do mundo, ao dar a volta.

O Belchior nunca foi um cara regionalista, e salvo a já citada música, não está no grupo dos que você ouve e reconhece imediatamente de onde veio e do que fez parte. A verdade é que ele era muito maior que isso, adjetivos não seria capazes de definir, rótulos seriam sempre insuficientes, e foi por isso que ele, desde cedo, se distanciou da música regional, falou sobre Brasil, sobre Corcovado, sobre a mente, sobre as angústias de “novos adultos” descobrindo a vida, fez Elis Regina atingir o inatingível e se tornar a diva que se tornou. Ele nunca fora apenas um rapaz latino-americano vindo do interior, alucinado em suportar aquele dia-a-dia e delirando sobre as experiências de coisas reais.

Conforme o tempo foi passando e comecei a acompanhar meu pai nas rodas de bate papo e cervejas geladas, percebi que toda aquela chateação com o artista era na verdade uma grande admiração a qual fazia meu velho ir, várias tardes, ao famoso Bar do Anísio em Fortaleza, onde toda essa turma de artistas se encontrava somente para ver o que estava acontecendo, o que rendia várias histórias (e estórias também) que eram repetidas incessantemente toda vez que nos pegávamos ouvindo discos como Alucinação ou Manera Fru Fru Manera. Era uma vibe previsível mas sempre gostosa: ao ouvir os primeiros acordes de “Apenas um rapaz latino-americano” sempre se seguia uma “filho, eu já te contei como esse cara era prepotente no tempo da faculdade?”. A verdade é que nunca cansei de ouvir essas histórias e hoje me pego nutrindo duas saudades dentro da mesma história, a de meu pai e do Belchior, ambos idos, mas cada um deixando a sua arte.

Não sou profundo conhecedor da obra do meu conterrâneo, e a verdade é que conheço mais sobre sua vida do que sobre sua arte, mas das prováveis 20 a 25 músicas que me recordo, sou incapaz de fazer qualquer ressalva. Belchior foi setentista e foi um José de Alencar com o violão debaixo do braço. Foi contemporâneo e atemporal. Retratou uma época mas não se perdeu no tempo, e foi mais rock n´roll que muito cabeludo de preto por aí.

Para alguns um cara que ficou louco e sumiu, para outros um dos maiores artistas desse país. Para mim, o protagonista de muitas histórias do meu pai, um gênio que me ensinou que o que era jovem há um tempo, hoje é antigo. E que precisamos sempre rejuvenescer.

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