Um embrião do Sgt Peppers

Data: 28/04/2017

Texto por Daniel Ribeiro.

Em 1966, os Beatles estavam vivendo uma vida dupla. Em turnê, eles tentavam manter a fachada dos adoráveis ​​cabeludos, mas a tensão entre eles já era enorme. Se você comparar a filmagem de uma conferência de imprensa de 1964 com uma de dois anos depois, você pode ver a diferença – toda aquela brincadeira havia sumido. Como Paul McCartney disse a um de seus biógrafos, "Estávamos fartos de ser os Beatles. Tudo se foi, toda aquela merda de garoto, todos aqueles gritos – não queríamos mais. "

Enquanto isso, suas vidas fora do palco eram vibrantes, cheias de arte e experimentação. Eles estavam ansiosos para prosseguir com as inspirações de Rubber Soul e Revolver mais profundamente, caminhar por esse território desconhecido. Depois de realizar seu último show em 29 de agosto em São Francisco, eles deram o adeus definitivo aos ternos e à fase inocente da banda.

Como compositores Lennon e McCartney abandonaram de vez as canções de amor de adolescente, simples, em favor de reflexões pessoais e meditações introspectivas. Eles abraçaram influências vanguardistas, de Dali a Stockhausen e com alguns alucinógenos adicionados à sua dieta diária, eles começaram a ver tudo em Technicolor.

Em 24 de novembro, no Abbey Road Studio, o grupo começou o que acabaria se tornando LP Sgt Peppers e "Strawberry Fields Forever" foi a primeira música finalizada.

Lennon já tinha escrito a maior parte dela no mês anterior em Almeria, Espanha, enquanto ele estava filmando “How I Won the War” e é possível ouvir sua demo de guitarra e vocal em Anthology 2, gravada alguns dias depois que ele voltou para Londres.

Mesmo neste cenário de transição da banda, havia um poder hipnótico que os levava de volta à música. O título refere-se a um albergue do Exército da Salvação em Liverpool, onde John costumava brincar quando criança. Paul o descreveria mais tarde como um "jardim secreto”. Além do detalhe mais realista do título, o resto da canção é todo um monólogo interior, com Lennon numa viagem lisérgica dentro do seu pensamento.

Anos mais tarde, ele refletiria e diria que sempre andou na contramão, desde criança sempre foi diferente dos outros e se sentia sozinho por isso, como ele fala na música: “No one I think is in my tree”.

Passando por vários arranjos no estúdio (a versão final é a colagem de duas versões), a música tornou-se a produção mais elaborada dos Beatles – um emaranhado de violoncelos, trombetas, címbalos, mellotron e cítara, e, como um último toque peculiar – e um truque fade out -, Lennon murmurou "molho de cranberry" (mais tarde “ouvida” por fanáticos e conspiratórios como: "eu enterrei Paul"). Mesmo hoje, depois de ouvi-la milhares de vezes, ela ainda é assustadora. Imagine como deve ter soado para aqueles que a experimentaram pela primeira vez em 1967.

Enquanto isso, como se contando uma história aos filhos, Paul McCartney foi um guia turístico alegre através da praça da cidade de Liverpool. Penny Lane tinha feito uma aparição anterior em um verso não utilizado para outra grande canção nostálgica, "In My Life", e agora Paul estava trazendo essa memória de volta. Ele mesmo sempre falou que tudo aquilo eram flashbacks de infância: o ponto de ônibus chamado Penny Lane, a barbearia chamada Bioletti com fotos dos cortes de cabelo como um cardápio na vitrine, e ele pega tudo, transforma em arte e nos transporta para aquele ambiente como se estivéssemos olhando tudo pela janela do carro.

O acabamento final veio com ajuda da Filarmônica de Londres. Paul disse posteriormente que teve a ideia de usar trompetes dessa maneira ao ver um programa na televisão. Sem saber se funcionaria, pegou o arranjador da orquestra e levou ao estúdio, fazendo com a boca como ele queria que aquilo tudo soasse.

Enquanto toda essa magnificência estava acontecendo em Abbey Road (105 horas foram dedicadas às duas músicas), o empresário da banda Brian Epstein estava se preocupando com o destino comercial do grupo. Com eles fora do circuito de shows, alguns críticos e fãs estavam questionando seu futuro. Epstein decidiu que um single era necessário para acalmar as dúvidas. O também gênio e produtor George Martin lembrou em Anthology que deu a idéia de fazer um single com 2 lados A, porque Brian estava desesperado para recuperar a popularidade da banda. Eles colocaram as duas canções juntas e fizeram um single arrebatador, o que pode ser considerado um erro terrível do ponto de vista comercial. Eles teriam vendido muito mais se tivessem lançado 2 singles com esses clássicos como lado A.

Em janeiro de 1967, os Fabs, barbudos e bigodudos, gravaram clipes promocionais para cada música e, como de costume, eles estavam à frente de seu tempo, incorporando efeitos inovadores (e perturbadores). Ao invés de sincronizar os lábios com a música, eles simplesmente murmuravam palavras, ao pôr do sol, dividindo a tela com um objeto estranho feito de um piano e cordas.

Todos os quatro estavam, claramente, sob a influência de algo diferente do tradicional chá da tarde Inglês.

Para a tristeza de Brian Epstein, sua cartada com a dupla lado-A "Strawberry Fields Forever" e "Penny Lane" ficou fora do primeiro lugar no Reino Unido (foi segundo), mas foi primeiro nos EUA.

As duas músicas nunca apareceram em um LP dos Beatles, além, claro, de coletâneas de sucessos lançadas posteriormente e da trilha sonora do filme Magical Mistery Tour, mas essas foram feitas sem a participação ativa da banda.

O que podemos dizer é que este fantástico single abriu as portas para as maravilhas do Sgt Peppers e definiu o palco para o “Summer of Love”.

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