Blood on the Tracks e uma outra faceta do Bob Dylan

Data: 19/04/2017

 

Texto por Daniel Ribeiro.

A emoção é o fenômeno mais poderoso do mundo e não importa o que você queira sentir, suas emoções nunca vão mentir. É um pouco assustador, quando você se dá conta de que é marionete da sua própria mente, com as emoções ali puxando as cordinhas e te controlando. No final das contas, você se dá conta de que é inevitável, e foi assim, provavelmente, que Bob Dylan estava se sentindo ao gravar esse álbum.

Robert Allen Zimmerman sabe uma ou duas coisas sobre emoções conflitantes, e quando você ouve a obra dele, percebe os altos e baixos, a alegria e a tristeza, quase uma bipolaridade expressada pela música (na maioria das vezes só por um violão e uma gaita). Bem, Bob Dylan se entregou às emoções em 1975, quando ele gravou o que muitos consideram (inclusive eu) ser o seu melhor álbum, o Blood On The Tracks. Nesse disco ele usou uns músicos de apoio, eu acredito que foi para que ele pudesse se concentrar em sua verdadeira paixão: a Letra da música (O Prêmio Nobel que o diga).

O próprio título do álbum é uma metáfora implícita, que mostra um dos lados mais obscuros de Dylan. Mostra também, com precisão, as composições deste álbum. As músicas são pra baixo, perturbadoras, pesarosas e desanimadoras, muitas vezes cheias de desgosto e fragmentos de memórias turvas. Acho que talvez por isso, eu e milhões de outras pessoas nos relacionamos tão bem com o Blood On The Tracks, e isso retorna ao que eu disse sobre o destino inescapável da emoção. Não é um enigma, é fato, e tão assustador quanto parece, o disco foi feito para nos mostrar como a música pode afetar o que sentimos.

A carreira de Dylan é um mosaico de diferentes temas e sentimentos, ele passou de cínico, a politizado atacando o governo, a poético, e esse álbum ilustra como poucos a sua habilidade como poeta. Quando um compositor que toca um instrumento, temporariamente, se afasta de suas responsabilidades como instrumentista em busca de escrever somente letras, só se pode prever que os resultados serão muito mais pessoais e líricos do que quando ele tem que se concentrar em todos os aspectos de uma música. As letras de Bob Dylan sempre foram poéticas e comoventes, mas este momento é um marco para ele como letrista, por isso quando você ouve, você se conecta de forma pessoal com cada estrofe cantada. Cada palavra que sai da boca dele vem para cima de você para mudar o que você está pensando. Suas letras são mais sombrias do que em álbuns anteriores, trocando cinismo e desprezo pela melancolia e reflexão.

Não é um álbum feliz, sem dúvidas, mas te “abraça” de forma calorosa. Enquanto os álbuns anteriores de Dylan são irônicos e descomprometidos, esse mostra que o velho Bob também pode te fazer refletir. Todo o sarcasmo anterior torna-se desgosto, e o niilismo se torna lamentação.

Lembro que comecei a prestar mais atenção ao álbum quando assistia ao seriado Californication e o personagem do David Duchovny sugere o Blood à sua filha que estava passando por um término de relação, dizendo a ela que era o disco oficial dos corações partidos. Não vejo melhor descrição, é o equivalente (em outro nível) do disco V da Legião Urbana.

Musicalmente, mesmo que não seja Bob Dylan tocando todas as faixas de guitarra, Blood On The Tracks apresenta o que poderia ser considerado alguns dos melhores momentos do músico. O violão é um pincel lento e criativo, silenciosamente pintando as músicas coloridas em uma imagem lírica e escura, com sua gaita não tendo aquela inspiração de blues como antes. Em vez disso, ele usa a harmônica como um detalhe nas canções, apenas adicionando uma ou duas notas para dar uma luz a elas. Na minha opinião, é isso que faz dele uma obra-prima – a compreensão de Dylan sobre a simplicidade e o uso dela, mas ser simples nem sempre é tão fácil quanto parece.

Para Dylan, o sofrimento é filosófico.

O artista andava por um território novo, mas parecia que sempre estivera ali, pois existem composições e arranjos atraentes, e as músicas de protesto anteriores agora se transformam em histórias de suicídio e vício, ou sobre perseguir o seu amor verdadeiro, mesmo que você reflita e veja que tudo já mudou.

Sua voz é grave e grosseira. E ela recita de forma crua e verdadeira somente o que ele sente. Esta é a sua obra de arte, uma tela colorida (ou não) com toques de simplicidade e sensibilidade, e tem um estímulo que muitos álbuns não parecem capturar. Este álbum, ao contrário de outros que têm um rótulo de "clássico", é real. E, porra, é bom. Eu gosto tanto deste álbum que minha vontade era dar de presente a todo mundo, porque apesar de fantástico, ele não é vazio de imperfeição. Nem tudo sobre o álbum é agradável e fácil de ouvir. Eu odeio admitir, mas na verdade, essas coisas poderiam desligar alguns ouvintes antes mesmo de ouvir a primeira música.

O humor geral do álbum é muito obscuro, sendo escrito depois de Dylan ter se separado de sua esposa, e dependendo da sua sensibilidade, talvez não seja a melhor coisa para ouvir quando estiver passando por um momento difícil. Outro fator sobre o álbum que pode ser um grande desmotivador para muitos ouvintes é o comprimento das músicas, que aqui variam de um poema cantado de dois minutos, para um conto sinuoso que dura bem mais de oito minutos, e convenhamos, esse tempo todo de guitarra folk e letras metafóricas na voz de Bob Dylan talvez não sejam a melhor coisa que você pode fazer em 8 minutos. No final, há muito mais positivo do que negativos sobre o disco, e se você entender o espírito e parar para ouvi-lo em sua totalidade, torna-se fácil ver porque este álbum é considerado um clássico.

Blood On The Tracks certamente não ganhou os maiores prêmios e nem vendeu tanto como Freewheelin ou The Times They Are A Changin, o que está longe de ser um demérito. A sensação que dá ao ouvir o álbum, é que há uma competição de verdades e sentimentos entre as músicas, numa vibe meio “essa música foi escrita para mim”, faixa após faixa.

Claro que não é um álbum que vai te fazer mudar de vida, mas esse disco, em particular, tem uma grande capacidade de te fazer refletir. Uma idéia tão simplista como o sofrimento pode se transformar em uma obra de arte muito mais multifacetada, enquanto uma pintura em tons de cinza é salpicada com toques sonoros, tudo rudimentar, mas atípico o suficiente para mudar sua mente sobre a música de Bob Dylan. A emoção pode afetar você, mas ela também age impulsivamente.

No final das contas, e por incrível que pareça, esse é um álbum tão sombrio e obscuro, que pode te colocar para cima e fazer você se sentir bem com a sua vida.

Para terminar, sendo tão piegas quanto é possível, eu gostaria de fazer uma pergunta retórica: Você concorda que é o poder das tuas emoções que é capaz de te deixar feliz depois de ouvir música triste?

Quando você o ouvir, saberá responder.

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