“Born to be Blue”, um capítulo na biografia da lenda Chet Baker

Data: 29/03/2017

Texto por Daniel Ribeiro.

"Isto me faz feliz."

Essa explicação sobre sua dependência em heroína, expressada pelo trompetista de jazz e cantor Chet Baker no filme biográfico, "Born to Be Blue", diz tudo.

As palavras são pronunciadas sem arrependimento e no tom reclamatório de um menino teimoso que insiste em ter tudo à sua maneira.

Sofrendo com o medo de subir ao palco na véspera de seu retorno no final deste filme obscuro, ele tenta, às lágrimas, explicar a relação entre seu vício e tocar seu instrumento: "Isso me dá confiança", ele explica em um sussurro rouco. "O tempo se alarga, se expande, e eu posso entrar em cada nota."

Nota para o desempenho extraordinário do Ethan Hawke como Baker, que neste enigma glamoroso torna-se um personagem realista, embora patético às vezes, que vive por apenas duas coisas: tocar trompete e usar heroína. Aliás, ele gosta de sexo também, especialmente quando está sob efeito da droga.

O filme começa na década de 1960 com uma cena do trompetista no set de uma biografia sua que nunca foi finalizada e, em seguida, faz um flashback para uma performance em 1954 assistida por Dizzy Gillespie e Miles Davis em Birdland, quando Baker era a sensação do mundo do jazz. Depois da jam, ele pergunta a Davis se ele gostou, e Miles zomba com uma voz grave: "Foi suave, como um doce" e com muita arrogância, aconselha-o a voltar quando tiver vivido um pouco mais. Fora do alcance da voz, Baker murmura: "Olá, Dizzy, olá, Miles. Há um pequeno gato branco na Costa Oeste que vai devorar vocês. "

Em seu canto e no manejo de seu instrumento, Baker, que era chamado de "James Dean do jazz", personificou o estilo de jazz descolado da Costa Oeste que mais tarde foi ecoado nas harmonias dos Beach Boys. Sua voz e trompete expressavam uma linguagem cósmica sombreada de melancolia romântica. O be-bop da Costa Leste era mais angular e destacado e emocionalmente mais sóbrio.

Conforme as fotos deste álbum de retratos vão se unindo e o filme alterna entre preto e branco e colorido, Baker surge como um músico assustado, desafiante, arrogante e inteiramente egocêntrico, que, como ele mesmo reconhecia, se destacou em apenas uma coisa. O resto da sua vida foi um caos.

Baker foi forçado a fazer uma pausa na carreira quando os traficantes de drogas a quem devia dinheiro lhe “privaram” dos dentes da frente, e ele teve que reaprender a técnica de trompete, usando dentaduras, que escorregavam constantemente. As cenas de Chet tentando tocar em uma banheira vazia após a agressão, com sangue jorrando pelos lados de sua boca, são agonizantes para quem vai assistir.

Em uma sequência reveladora, o trompetista visita a família em sua fazenda de Oklahoma e tem um confronto venenoso com seu pai, um ex-músico que zomba de seu filho por cantar como uma menina e o acusa de "levar o nome da família para a lama ".

Como Baker era um homem jovem e bonito (e há ensaios fotográficos bem conhecidos da época), atraiu uma quantidade sem fim de fãs do sexo feminino. Em uma decisão astuta da produção do filme (assim como no filme do Renato Russo), muitas mulheres de sua vida são misturadas em um único personagem, Jane, uma atriz aspirante, interpretada por Carmen Ejogo, que traz vitalidade notável para este composto inventado para a película. O único outro personagem que tem grande relevância é o produtor simpático de Baker, Dick Bock, que fundou o Pacific Jazz Records.

Quanto à música, os criadores de "Born to Be Blue" tomaram a arriscada decisão de não usar as gravações originais de Baker. O trompetista de jazz Kevin Turcotte se aventura na arte de Chet em fases diferentes, incluindo o período depois que ele perde os dentes e está lutando para tirar qualquer som a partir do instrumento. Se o Sr. Hawke fez uma imitação razoavelmente boa da voz simples e sem vibração de Baker cantando "My Funny Valentine" e "I've Never Been in Love Before", é apenas porque ele conseguiu captar a fragilidade encarnada nesse personagem fantástico.

O glamour de Baker nunca desapareceu completamente.

Como visto em outros documentários e vídeos, Chet, devastado por seu vício, sempre apareceu envolvido em uma tempestade narcótica, mas mesmo assim, para alguns admiradores mais fiéis, ele permaneceu um objeto de adoração.

A mística sedutora do garoto perdido ainda se agarrou a Chet Baker durante toda a sua vida, como faz também hoje ao ser documentada por esse belo filme. E talvez, isso, nos faça um pouco feliz como fãs.

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