Legião Urbana e Eu, ou sobre ser um adolescente.

Data: 27/07/2016

Texto por Talles Garcia.

Quando se tem 15 anos tu não pode ser dono de si mesmo. Na época eu era freado por um casulo familiar que não permitia um espírito curioso às vésperas da vida adulta como eu de me aventurar sozinho por aí. Um dos dilemas da juventude: Você é um jovem esperto cheio de teorias e primeiras opiniões vindas de uma personalidade adolescente que ainda não maturou, mas que você julga ser suficientemente madura. Ser “podado” é algo comum para alguém dessa idade. Eu era uma fera selvagem enclausurada, sem a chance de canalizar minha juventude. Trágico, não?

Foi assim comigo e com o resto dos jovens do mundo, que esperavam por alguma libertação, uma chance de se rebelarem. Bem, para aqueles que “ouviram o chamado”, o rock estava lá justamente pra isso. A versão mais crua dele nos acolhe e canaliza toda essa energia enjaulada que é ser um jovem de 15 anos. Quanto mais instrumentos sobrepostos e mais rápidos melhor. Isso era suficiente. Não prestava atenção na letra enquanto tava “headbangando” por aí, e tenho certeza que não ia gostar se ouvisse Pink Floyd ou o Álbum V do Legião Urbana.

Bem, era aqui que eu queria chegar.

Diferente de Pink Floyd e Bob Dylan, Legião Urbana tinha um discurso que eu entendia. No sentido mais literal do termo. Eu não falava inglês e não podia consumir muita coisa lá de fora que não os riffs de guitarras. Legião Urbana me possibilitou absorver o conjunto completo da experiência (sem riffs). A abordagem crua do rock junto com o discurso. Pegou o adolescente pela mão com a barulheira crítica de Geração Coca-cola e levou por um caminho de auto-conhecimento que nenhuma outra banda brasileira de rock fizera. Ninguém compreendeu tão bem as dúvidas da juventude brasileira e lhe deu uma voz tão audível. E ninguém ensinou tão bem a acalmar tal voz e ensiná-la a cogitar “as palavras que nunca são ditas” em prol daqueles mais próximos.

A Legião Urbana representa pra mim aquilo que liga o jovem na roda punk curtindo Ramones com aquele tiozão bebendo seu vinho e ouvindo Bob Dylan: Representa o rock como exercício de feeling. Da sensibilidade que ganhamos para o que acontece na volta. Representa o discurso da resposta. A mensagem atemporal que instiga o questionamento, a quebra do silêncio e a posição do próprio indivíduo, onde cada álbum é um degrau na maturação daquele mesmo jovem lá do início, assim como a própria banda em seu trajeto.

Onde há só mais um grupo de jovens tocando outra música fácil do Legião Urbana no violão, pode-se ver também o legado de uma banda pós-ditadura que hoje, sem temor algum, pode cantar “Duas Tribos” ao ar livre. Que pode cantar o que quiser ao ar livre.

Por mais pessoal que a abordagem da banda seja, ela carrega uma bagagem social que transcende ela própria.

Para encerrar, nesse episódio do Programa Livre aqui embaixo (que é um bom exemplo do discurso e representatividade da banda) Renato Russo diz: “Quando a gente sente que não tem o que falar a gente não faz imprensa. Quando a gente pensa que não tem o que dizer a gente não lança disco.” (Levítico, 54:12)

 

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