O Misticismo Por Trás de The Dark Side Of The Moon

Data: 21/02/2013

Por Wildsley Mathias (ouvinte/fã do Crazy Metal Mind)

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PS: O texto aqui descrito é uma análise e opinião crítica do autor, não a verdade absoluta.

Eu sempre me perguntava o que The Dark Side of the Moon tinha de tão especial, o por quê de tanta reverência por parte da crítica. A verdade é que é sempre complexo de se fazer uma análise sobre uma obra de tal magnitude, ainda mais quando se trata de um dos álbuns mais enigmáticos de todos os tempos, senão o mais enigmático.
“Dark Side…” foi o oitavo álbum de estúdio da banda britânica Pink Floyd. Uma banda que por si só, carrega toda uma áurea de misticismo, psicodelia e lisergia. E foi neste álbum onde Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright evidenciaram todas essas características.

Extraindo tudo do álbum, uma análise mais profunda inicia-se pela arte da capa.

(LP do The Dark Side Of The Moon)

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A arte da capa consiste em um prisma recebendo um feixe de luz branco, que logo após é convertido em um arco-íris. Tal explicação para essa ilustração pode ser compreendida como uma evolução de espírito do ser humano, ou seja, um ser monocromático que evolui a uma expansão de cores. Mas tal explicação estaria muito simples, visto que os idealizadores da mensagem é o Pink Floyd. É de conhecimento de todos que a ascendência de algo é retratado da esquerda para direita e de baixo para cima, o sentido contrário refere-se a decadência. E ao observar a capa do álbum vimos que o Pink Floyd vai na contramão desse padrão. Isso porque enquanto o primeiro feixe de luz segue na direção crescente da evolução (de baixo para cima), o feixe colorido sofre uma queda, como em um gráfico, por exemplo. Uma das músicas do álbum, chamada “Any Colour You Like”, retrata bem a mensagem: “…qualquer que seja a cor que você escolher, não importa qual a ideologia, enfim, todo o caminho do ser humano, por determinados pontos de vista, será sempre algo decadente…”.
E é o que vimos nas outras canções do álbum: uma amostra da angústia humana, da solidão, do envelhecimento, morte, dinheiro, ou seja, tudo parte da decadência moral do homem.

O álbum foi fortemente inspirado em um ex-membro da banda, Syd Barret, que deixou o grupo em 1968, devido a sua fragilidade mental, causada pelo exagero do uso de drogas, principalmente LSD. Barrett era o principal idealizador musical da banda, foi ele quem compôs os primeiros singles do grupo, ajudando no som progressivo e psicodélico que os cercavam. Barrett, acima de tudo, foi um sujeito incapaz de se acostumar com a sociedade e com outros fatores da mesma, e o resultado dessa incapacidade foi sua decadência.
Talvez daí venha a explicação do título do álbum. “O lado escuro da lua” nada mais é do que uma analogia a máscara carregada por todo ser humano. Todos têm um lado escuro dentro de si, uma espécie de loucura retraída que não é vista pelas outras pessoas.

(Syd Barrett)

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As músicas de The Dark Side of the Moon:

O álbum é composto por 10 canções, sendo que três delas são instrumentais.
Uma particularidade dessas músicas são suas excentricidades sonoras. A evolução musical por trás de cada canção nos mostra que, na época da elaboração de todo material do álbum, foi nitidamente explorado todo o potencial dos aparelhos da época. Vale destacar também que o álbum foi produzido pelo estúdio da Abbey Road (aquele mesmo dos Beatles), talvez por isso tenha se tornado possível o som exótico de cada canção, tendo em vista que a Abbey Road tinha o que o mercado poderia oferecer de melhor quanto a aparelhos estéreos de alta fidelidade da época.

A primeira canção do álbum é intitulada de “Speak To Me”, e em algumas versões é unificada com a segunda canção, “Breathe”, ressaltando que uma das particularidades desse álbum é que justamente em todas as canções não há uma quebra clara de sintonia, ou seja, de certo modo, elas são unificadas, interligadas, é como se todo o álbum fosse composto de uma única canção, de uma gigantesca canção.
Mas, continuando, em “Speak To Me/Breathe”, na parte referente a “Speak To Me”, temos o primeiro instrumental, mas nem por isso deixa de ter uma mensagem. Nela estão contidos variados sons, que vão deste vozes, batimentos cardíacos, caixas registradoras, finalizando com um grito angustiante. “Speak To Me” retrata a influência que o mundo exerce na mente das pessoas. Logo em seguida, começa “Breathe”, e a mensagem da música é essa mesmo: Respire! A sua única escolha é viver e fazer parte de um sistema que no final irá te jogar em uma sepultura precoce. Um trecho a se destacar da canção:

“Por mais que você viva e voe alto
E os sorrisos que você vai dar e as lágrimas que vai chorar
E tudo que você toca e tudo que você vê
É tudo que sua vida sempre será”

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Logo em seguida, inicia-se o segundo instrumental do álbum: “On The Run”. Aqui vimos do que o Pink Floyd é capaz. A maestria como foi utilizado os sintetizadores e os sequenciadores é única, nos dando ideia de uma cena de fuga de tudo aquilo que foi mostrado anteriormente em “Breathe”, essa percepção de movimento se dá graças a alguns ruídos que foram filtrados dentro da música.

Depois vem “Time”, que particularmente é uma música que emotiva bastante. É bastante famosa pelo barulho de vários relógios no início da música, retratando o tempo que insiste em passar de forma acelerada. A letra tem um tom melancólico ao mostrar a inquietante angústia sofrida por aqueles que presenciam o passar do tempo até a morte. Há um trecho da música que faz uma metáfora da ganância do homem em alcançar o sol, mas com o mesmo dando a volta pela Terra e o atingindo pelas costas. E a cada dia que se passa, mais o homem vai ficando sem fôlego para alcançar o sol, que por outro lado continua o mesmo sempre. Eis o trecho citado:

“E você corre e corre para estar junto ao sol, mas ele está se pondo
E gira ao redor para vir atrás de você novamente.
O sol é o mesmo de uma forma relativa, mas você está mais velho
Com menos fôlego e um dia mais próximo da morte.”

Dando uma pausa na análise das canções, vimos que o tema dessas primeiras canções é direcionado ao tempo. Continuando a análise, agora entramos na canção com uma temática mais espiritual, “The Great Gig in the Sky”.
A canção inicia com o depoimento do tecladista, Richard Wright, sobre o descaso com o fato de que um dia, todos iremos morrer: “Por que estaria com medo de morrer? Não há razão para isso, você tem que ir algum dia”. A canção continua com uma atuação primorosa da cantora convidada Clare Torry, onde testemunhamos um belíssimo vocal de apoio. Clare Torry parece ter focalizado para sua voz todo o temor da morte que circunda o ser humano. Seus gritos parecem metaforizar um evento religioso que tenta de todas as maneiras encontrar a resposta para o destino do homem após a morte.

(Clare Torry)

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“Money” é a canção que inicia o “lado B” do álbum, e foi um dos maiores hits do mesmo. Aqui começa a temática do capitalismo, outro fator que assola a mente humana, contribuindo para a sua loucura. Resumindo, a letra mostra em um tom irônico, que você precisa de dinheiro para ser sociável. Mas caso você não tenha dinheiro, peça um aumento, mas saiba que não terá. A alegação: o dinheiro é a raiz de todo o mal. Trecho de destaque da música:

“Dinheiro, é um crime.
Divida-o de modo justo mas não pegue um pedaço da minha torta.”

“Us And Them” é uma das músicas mais difíceis do álbum de se saber o que realmente o Pink Floyd estava querendo dizer. Talvez uma pequena história narrada sobre homens comuns por essência, mas que devido ao poder que cada um possui, há divergências quanto a importância de cada um na sociedade. Opressores e oprimidos, por assim dizer.
Os opressores dão as palavras de ordens para que os oprimidos as sigam. Aquele que não seguir tais palavras, é ignorado e abatido por um tiro certeiro da sociedade. A mensagem que fica no fim é a de que devemos morrer de uma forma mais inteligente, ou seja, sem essa submissão imposta pela sociedade em decorrência do capitalismo.

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“Any Colour You Like” é o último instrumental do álbum. Como já dito anteriormente, ela retrata que não importa a cor que você escolha, você não tem muitas opções, a não ser aquelas impostas a você. Muito da arte do álbum pode ser explicada através desse instrumental.

Nas duas últimas músicas do álbum, temos aquelas que se encaixam perfeitamente nas condições de Syd Barrett, considerado por muitos como o maior lunático de todos os tempos.

Primeiro temos “Brain Damage” (Danos Cerebrais). Aqui vemos que o homem está sujeito a dominação, ao poder da influência que derruba a condição moral e mental do ser humano. Em um trecho da música, há questionamentos como no caso de uma represa ceder e não haver um lugar no alto da montanha para se salvar, ou seja, e se sua mente não aguentar a pressão? E se a loucura for inevitável? Neste caso, se sua cabeça não aguentar mais, saiba que do lado escuro da lua haverá outros lunáticos a lhe observar e a lhe compreender.
É como se Roger Waters, o compositor de “Brain Damage”, quisesse dizer que ele entende que todos temos impulsos e sentimentos ruins, porque ele também os têm. E essa é a maneira de haver uma comunicação entre esses lunáticos, compartilhando da mesma dor. Waters tenta nos dizer que o lado escuro da nossa personalidade nos influencia de tal forma que nos impedem de conquistar o melhor que a vida pode nos oferecer.

Trecho da música:
“E se a represa quebrar depois de algum tempo
E se não houver nenhum espaço em cima da colina
E se sua cabeça também explodir com mau presságio
Eu te verei no lado escuro da lua.”

E, por fim, temos “Eclipse”, o ‘gran finale’ do álbum. A mensagem aqui é clara: Apesar de tudo parecer estar em uma perfeita harmonia, harmonia essa representada pelo sol, ela pode ser interrompida pela lua, que trará uma escuridão antes não imaginada. Um eclipse. A música é composta por arranjos inquietantes e angustiantes. Um trecho da música diz o seguinte:

“E tudo sob o sol está em perfeita sintonia
Mas o sol esta coberto pela lua.”

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Nitidamente feito a todo gênio incompreendido, The Dark Side of the Moon foi um divisor de águas na indústria fonográfica, tanto pelo seu modo único e inigualável de produção de som, desde o modo como foi abordado temas tão desafiadores ao homem, como tempo, morte, religião, capitalismo, paranoias e angústias. Trata-se de um álbum conceitual e espiritual que extrai o convívio social do homem e da influência sofrida por ele.

Então, após essa análise, volta a ser feita aquela velha pergunta: O que The Dark Side of the Moon tem de tão especial? O por quê de tanto misticismo? A resposta é simples: O Pink Floyd soube resumir os sentimentos de toda uma juventude através da sensibilidade. No difícil processo de criação dos efeitos sonoros e na criatividade na composição das canções, o Pink Floyd soube trazer com louvor a complexidade do ser humano através de um complexo álbum, que é tão difícil de decifrar assim como o próprio homem.
A loucura do homem é uma consequência lógica de seus atos e modo incompreensível de viver, vide Syd Barrett.
A história do álbum é mística e se correlaciona com o da própria banda.
Sem dúvidas, é a maior obra do Rock Progressivo de todos os tempos.
Pra finalizar a análise, deixo um trecho de uma das canções do álbum:

“Você é jovem, a vida é longa e ainda há tempo para matar o hoje.”

NOTA DA EQUIPE CMM: Se você é leitor/ouvinte/fã do Crazy Metal Mind, e tem um texto bacana sobre qualquer assunto relacionado a Rock’n Roll, envie para nós no “Fale Conosco”, que avaliaremos e quem sabe você não tem um texto publicado aqui no CMM como o Wildsley Mathias?

Let’s play PSYCHEDELIC ROCK!

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